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Situação da Turquia acende alerta para nova crise financeira global

A situação da Turquia se agravou no começo desta semana quando a lira turca teve novas baixas e o presidente Recep Tayyip Erdogan se recusou a abandonar suas políticas econômicas não ortodoxas – o que deixou os investidores temendo uma nova crise financeira global. 

A Turquia e outros países que fizeram financiamentos quando o dólar era abundante e barato agora se deparam com dívidas crescentes que podem não ser capazes de pagar. 

Tais preocupações aumentaram quando a lira se depreciou e arrastou com ela moedas de países em desenvolvimento como a África do Sul, Argentina, México e Indonésia. 

Em Wall Street, as telas mostravam em vermelho o declínio das ações à medida que as perdas do mercado financeiro, que começaram na Ásia, se espalharam pela América do Norte e Europa. 

Os problemas da Turquia se aprofundaram com a decisão abrupta do presidente dos EUA, Donald Trump, na sexta-feira (10), de dobrar as tarifas sobre metais turcos importados, em uma tentativa de punir Erdogan por se recusar a libertar um pastor americano que enfrenta acusações relacionadas ao terrorismo. 

A Turquia está com problemas financeiros porque seus bancos fizeram empréstimos em dólar nos últimos anos, enquanto o Federal Reserve mantinha as taxas de juros próximas de zero. O governo de Ancara também expandiu seu orçamento para estimular o crescimento econômico, especialmente depois de uma tentativa de golpe em 2016

Com a desvalorização da lira, as dívida dos tomadores de crédito turcos estão rapidamente se tornando incontroláveis. Até agora, Erdogan está resistindo a pedidos de investidores para aumentar as taxas de juros ou para buscar ajuda do Fundo Monetário Internacional (FMI). 

Se os turcos deixarem de pagar suas dívidas, os bancos estrangeiros – especialmente na Europa – sofrerão grandes perdas. Grandes bancos espanhóis são donos de mais de US$ 82 bilhões destes empréstimos, enquanto os bancos franceses têm US$ 38 bilhões em empréstimos em aberto, segundo o Bank for International Settlements (BIS, que funciona como o Banco Central dos bancos centrais), em Genebra. 

O que explica a vulnerabilidade?

A situação da Turquia é em grande parte o resultado de seus próprios erros. Mas é improvável que a nação de 80 milhões de pessoas seja a única vítima da mudança de ventos no mercado financeiro, que decorre de alterações na política do Federal Reserve e de outros bancos centrais. 

O dólar norte-americano, agora em seu nível mais alto em 13 meses, está sendo impulsionado pelo aumento da taxa de juros do Fed e pela venda de títulos do governo. 

O economista Jacob Funk Kirkegaard, do Instituto Peterson de Economia Internacional, disse: “Os mercados estão acordando para a realidade de que haverá consequências para o aumento das taxas de juros. Faz parte da transição do ambiente de taxa zero que tivemos, onde o dinheiro tem sido muito, muito barato”

As dívidas de empréstimos globais aumentaram muito desde a Grande Recessão. De US$ 97 trilhões em 2007, o total de dívidas domésticas, corporativas e governamentais passou para US$ 169 trilhões no ano passado, de acordo com o McKinsey Global Institute. 

Grande parte do endividamento mais agressivo foi feito por corporações, notadamente em mercados em desenvolvimento como a China, explica o instituto McKinsey em um relatório divulgado em junho, que alertou sobre possíveis vulnerabilidades. 

As taxas globais de inadimplência das empresas já estão acima da média de longo prazo e a perspectiva de aumento das taxas de juros pode colocar tomadores de títulos corporativos em maior risco, afirma a McKinsey. 

Por enquanto as preocupações estão restritas a mercados emergentes que sofrem com os mesmos problemas da Turquia. A crise turca “não é uma séria ameaça para a economia dos EUA, ou para o sistema bancário, ou para os planos do Fed de continuar com a gradual normalização da política [monetária]”, escreveu Ian Shepherdson, economista-chefe da Pantheon Macroeconomics. 

Boicote a eletrônicos americanos

O banco central da Turquia anunciou novas medidas na segunda-feira para conter a rápida depreciação da moeda do país. 

Depois que a lira despencou do dia para a noite em uma baixa recorde, o banco central comunicou que “tomaria todas as medidas necessárias para manter a estabilidade financeira” e forneceria aos bancos a liquidez de que precisavam. A moeda se recuperou um pouco após a declaração do banco central e da promessa do ministro das Finanças da Turquia de estabelecer um plano de ação para conter as perdas da lira. Mas havia pouco otimismo de que essas medidas seriam suficientes para recuperação da moeda, que perdeu mais de 40% do valor em relação ao dólar neste ano. 

Enquanto os turcos se preparavam para um aumento da inflação de dois dígitos e os mercados globais conturbados por causa da lira, Erdogan, que culpou as potências estrangeiras pela crise, insistiu que a economia era “sólida, forte e intacta”, segundo a agência estatal Anadolu. 

Leia mais:  Os perigosos caminhos da economia turca a levam em direção à crise

Nesta terça-feira (14) Erdogan anunciou que a Turquia boicotaria produtos eletrônicos fabricados nos Estados Unidos, aumentando ainda mais a disputa com o governo Trump. 

“Vamos aplicar um boicote aos produtos eletrônicos da América”, disse Erdogan durante um discurso televisionado, acrescentando que existem alternativas, produzidas por empresas sul-coreanas ou turcas. Ele não disse quando o boicote começaria ou como seria aplicado. 

“Se eles têm o iPhone, existe a Samsung do outro lado”, disse ele, referindo-se ao telefone da Apple, que tem sido associado ao próprio Erdogan quando ele usou o recurso FaceTime para reunir cidadãos durante uma tentativa fracassada de golpe.  

Diplomacia

O governo turco está em uma disputa acirrada com os Estados Unidos sobre a prisão de Andrew Brunson, pastor da Carolina do Norte que foi preso há quase dois anos na Turquia e é acusado de ajudar grupos terroristas. Ele afirmou sua inocência e autoridades dos EUA rejeitaram as acusações que pesam contra ele como infundadas. 

No mês passado, um tribunal turco ordenou a libertação de Brunson da prisão, mas colocou-o em prisão domiciliar, provocando uma reação furiosa do governo Trump, que exigiu que ele fosse autorizado a retornar aos Estados Unidos. 

Autoridades norte-americanas chamaram de terrorismo as acusações da Turquia e exigiram que Brunson seja autorizado a retornar aos Estados Unidos. Na terça-feira, o advogado turco do pastor fez uma petição ao tribunal para libertar o americano da prisão domiciliar, depois que um recurso anterior foi negado. 

Leia também: Economia da Turquia derrete e serve de alerta ao Brasil

O destino de Brunson é um dos muitos problemas que dividem os aliados da Otan, que entraram em conflito por causa da política em relação a Síria e das consequências da tentativa de golpe de 2016 contra Erdogan. Nos últimos dois anos, a Turquia vem exigindo que os EUA extraditem Fethullah Gülen, um clérigo turco acusado por Ankara de orquestrar o golpe. Gulen negou envolvimento. 

Na segunda-feira, enquanto canais de notícias pró-governo alertavam sobre um “golpe econômico” contra a Turquia, Erdogan atacou os Estados Unidos, dizendo a uma plateia de embaixadores estrangeiros que “os valentões do sistema global não podem, descaradamente, invadir nossos ganhos que foram conquistados com sangue”, de acordo com o turco Hurriyet Daily News. 

Economistas advertiram que tais declarações de Erdogan poderiam prolongar a crise, junto com sua recusa em aumentar as taxas de juros, em linha com sua alegação de que baixas taxas de juros causam inflação baixa – uma visão contrária à análise econômica mais aceita no mercado. 

Mas ele permaneceu com uma postura desafiadora. Pediu aos cidadãos que vendessem dólares e ouro para apoiar a moeda local. “Vamos reverter os cenários que têm a nossa nação como alvo”, disse Erdogan. 

Fonte: Gazeta do Povo

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