| SINTRACOM
EM AÇÃO,
04 de junho de 2008 | Eventos
Atrás das Grades
Detento do CDR vence concurso de
redação
O dia 9 de junho de 2003 ficará, para sempre, na memória
de Anderson Cândido de Sales, 26 anos de vida e nove de pena
a cumprir no Centro de Detenção e Ressocialização
de Londrina (CDR). Naquele
dia, Anderson descobriu o significado da palavra tragédia
conforme conceituada pelos gregos. “Um tipo de drama onde um
herói trágico luta contra um fator transcedental que
controla o fluxo dos acontecimentos.”
“Tamanha é a força desse fator, que sempre chegamos
em um final trágico, onde o herói sofre todas as conseqüências
por tentar controlar o poderoso destino.”
Naquele 9 de junho, o fator transcedental
a mudar, de forma trágica
a vida de Anderson, foi quando ele se viu frente a frente com o ladrão
que invadira e roubara inúmeros pertences da residência
de sua mãe, dona Rosa.
Junto com o filho enraivecido pelo
ato criminoso cometido contra sua genitora estava um amigo. O amigo
estava armado com um revolver
e também tinha lá suas quizilas com o bandido, figura
conhecida no bairro pelos atos de violência que costumava praticar
contra os moradores do União da Vitória.
O bandido foi abatido e Andeson foi
preso, julgado e condenado por ter participado do homicídio. Cinco anos depois, o jovem morador
do Conjunto União da Vitória II, como o herói
trágico criado pelos gregos antigos, tenta controlar seu destino
(Fado) e dar a volta por cima.
Uma das formas encontradas pelo detento
para se reintegrar à sociedade,
foi empenhar-se nos estudos. Ele está matriculado no CEEBJA – Centro
Estadual de Educação Básica para Jovens e Adultos “Professor
Manuel Machado”, que funciona no CDR.
Mas não é só isso. Anderson foi o melhor colocado
nas provas do ENEM de 2007 e, amanhã, recebe o prêmio
pelo primeiro lugar conquistado no 2º Concurso de Redação
do Sintracom-Londrina – Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias
da Construção e do Mobiliário de Londrina.
Assim como os quase 400 participantes
do Concurso, Anderson escreveu sobre Democracia – o voto que muda a vida da gente. No texto
ele destaca a importância do voto e ressalta o poder do eleitor
citando o impeachment do ex-presidente Collor e a cassação
do ex-prefeito Antonio Belinati.
DROGAS – No dia em que conversou com a assessoria de imprensa
do Sintracom-Londrina, Anderson contou a história de sua vida.
Uma vida comum, cheia de altos e baixos como a da maioria dos brasileiros
pobres.
Nascido no Jardim Ângela, bairro localizado no Capão
Redondo, São Paulo-SP, e conhecido pela violência que
aterroriza seus moradores, Anderson chegou em Londrina aos 10 anos
e foi direto para o União da Vitória.
Seu pai, Norival, trabalhou em uma
empresa de construção
e recebeu cheques sem fundo como pagamento. “Ficamos seis meses
comendo arroz e cebola frita”, lembra. Descontente, o pai resolveu
voltar pra São Paulo e a mãe ficou em Londrina com
os filhos.
De dificuldade em dificuldade, Anderson
acabou se envolvendo com as drogas. “Na passagem dos 17 para os 18 anos, durante seis
meses, consumi todo tipo de droga que você possa imaginar”,
confessa.
Nesse tempo, também se envolvera com o Grêmio Estudantil
do CAIC “Dolly Torresin”, Zona Sul, e essa foi a sua
salvação em relação ao uso de entorpecentes. “Passei
a desenvolver projetos de HIP-HOP com recursos da Secretaria Municipal
de Cultura e da Fundação Kellogg”, lembra.
Numa noite em que se apresentava no
Centro da Cidade recebeu um telefonema da mãe. “Ela me ligou e contou que estava
apavorada porque nossa casa tinha sido invadida por um ladrão”,
relata.
DHIOVANA – Durante a conversa, Anderson se mostrou uma pessoa
afável e tranqüila. Contou sobre as inscrições
para vestibulares em várias instituições e sobre
o sonho de se tornar advogado.
“Quero ajudar as famílias de presos, para não
serem vítimas de maus advogados, como o que pegou R$ 5,5 mil
de minha mãe, com a promessa de me livrar da prisão
e, depois, simplesmente desapareceu”, disse.
Ele só não conseguiu manter o controle quando o assunto
foi a filha Dhiovana, 7 anos. Anderson chorou feito criança
ao lembrar que, por conta de sua condenação, vê a
filha apenas uma vez por mês.
“É muito triste. Acabei perdendo a possibilidade de
ver minha filha crescer e ajudar na educação dela”,
avalia. Depois, enxugou as lágrimas e seguiu falando de seus
planos para quando estiver “fora da casa dos mortos.”
Mais informações com Mario Fragoso 9123-8943 ou Denílson
Pestana 9924-600
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